Alhandra. Uma vila de sempre para uns, um ponto de passagem para outros.
Aqui, sente-se a frescura da natureza e o cheiro do Tejo.
Rua Miguel Bombarda. Uma rua comprida, onde também estaciona
a escola de Vela. No café da Sociedade Euterpe Alhandrense, os
senhores de longa idade trocam ideias.
Do lado esquerdo deste espaço lúdico, entre moradias escuras,
sentam-se agora, lado a lado, os restos do que foi o tão brilhante
Teatro Salvador Marques.
Trocou a Damaia por Alhandra, mas sempre que passa em frente deste espaço
agora abandonado, Andreia Maia, pára e observa com atenção.
Ligada à área da dança e da arqueologia consegue
compreender este abandono. "Nos meios mais pequenos acho que é
bastante usual este tipo de situações, pois durante muito
tempo a maior parte das pessoas preferiram deslocar-se para grandes
centros comerciais onde podiam ter uma maior disponibilidade de serviços.
Tal situação é, no entanto, na minha opinião
de moradora e bailarina, uma grande perda, e penso que, a população
em geral preocupa-se mais com a qualidade de vida, procurando por isso
"viver" o local onde vivem", confessa.
Foi um ex-libris enquanto teve as portas abertas. Com uma arquitectura
de estilo clássico e de raíz italiana. A sala de artistas
reproduzia o aspecto do antigo Teatro Apolo em Lisboa. Tinha uma estrutura
interior que deixava os espectadores de boca aberta. Era composta por
um balcão, uma plateia e duas ordens de camarotes, dispondo,
igualmente de um restaurante e de um salão nobre. A plateia sentava
400 pessoas e os camarotes alojavam 30. As pessoas deixaram de frequentar
o teatro e o cine-teatro. Na altura, o vídeo apoderou-se das
preferências dos cidadãos e as portas deste espaço
foram obrigadas a fechar. A bilheteira iluminada e cheia de cor deu
lugar aos meros tijolos empilhados. O frontão que coroava todo
o conjunto do edifício desapareceu com o terramoto de 1909. A
placa onde se lia ao longe, a palavra cinema já tem ferrugem,
perdeu a cor e a leitura.
Salvador Marques foi um dramaturgo que cresceu e viveu na vila alhandrense.
"Comissário de Polícia" foi a primeira comédia
a estrear o Teatro da Rua Miguel Bombarda. Dirigida por Gervásio
Lobato e representada pela Companhia de Teatro Gimnásio de Lisboa,
onde o actor Valle vestiu a pele do protagonista. No dia 10 de Junho
de 1905, o teatro recebeu os primeiros aplausos.
Tinha nove anos quando subiu as escadas deste palco pela primeira vez,
com a peça "Os rapazes são o diabo". Agora Maria
Amélia tem 71 anos, mas ainda se lembra da magia deste espaço.
"Era um grande palco. O Senhor Reis dizia que era uma sala que
faz lembrar o S. Carlos em miniatura. Era uma sala muito bonita. Ainda
se nota, mas já tiraram o candeeiro, tiraram o piano cá
em baixo, disseram que era para reabilitar. Tinham umas estátuas
muito bonitas, depois aquilo caiu e guardaram. Puseram os tijolos cá
em baixo a tapar, para as pessoas não se meterem lá dentro.
E levaram também o pano que subia", recorda entre sorrisos.
A valorosa peça "Os Campinos" de Salvador Marques,
foi apresentada pela primeira vez nesta sala de muita beleza e representada
por amadores de Alhandra, a 23 de Março de 1913, em benefício
dos Bombeiros Voluntários desta vila.
Na década de 40, o Teatro transformou-se em Cine-Teatro Alhandrense,
passando a exibir apenas cinema, incluíndo as grandes produções
nacionais.
Entre 1964 e 1965, a cargo da Lisboa Filmes, o edifício sofreu
uma remodelação que sacrificou a sua antiga fachada. As
portas foram fechadas para descanso do pessoal em 1984 e nunca mais
voltaram a ser abertas.
Os apelos dos cidadãos são alguns, mas a espera alonga-se
sem fim à vista. As sugestões de restituição
espalham-se nos sussurros de cada esquina. "Seria bastante interessante
reabilitar o edifício e torná-lo todo num pólo
dinâmico com actividades ligadas a várias áreas,
nomeadamente dança, teatro, música, cinema. A Junta poderia,
por exemplo, nos fins-de-semana, realizar sessões de cinema durante
a tarde e noite, com filmes direccionados para os mais pequenotes e
para os adultos. Poderia também tentar com grupos de dança
e teatro da zona (e não só) dando a conhecer trabalhos
bastante interessantes", sugere Andreia Maia, bailarina e residente
em Alhandra.
Andreia Maia acredita nesta reabilitação e realça
as suas beneficências. "Primeiro porque apoiar a cultura
eé sempre importante, e infelizmente tal raramente acontece.
Segundo iria, sem dúvida, dinamizar a zona de Alhandra, que manteria
o seu aspecto rural. E ao mesmo tempo seria uma vila moderna com actividades
para os seus habitantes, fazendo com que estes não sintam necessidade
de se deslocarem para os grandes centros urbanos, como Lisboa",
explica.
Oito anos é o tempo previsto de recuperação deste
teatro. A esperança de voltar a ver o teatro da Rua Miguel Bombarda
em Alhandra nunca morre. Os momentos de luz e alegria poderão
voltar. A plateia voltará a estar cheia e na bilheteira estará
uma multidão para comprar o acesso aos espectáculos.
Foi um marco para os habitantes de Alhandra e para o concelho de Vila
Franca de Xira. Mas há quem vá mais longe. "Foi um
dos principais teatros da corda de tournées do teatro português",
conclui o vereador João de Carvalho.
As ideias do povo são mais que uma mão cheia. Todas se
cruzam de uma maneira ou de outra. Mas um projecto já está
traçado pelo vereador João de Carvalho.
A colecção de informação especializada em
artes não será esquecida neste plano. Aqui vai haver espaço
para os amantes de vários tipos de arte. "Irá ser
feita uma pequena biblioteca com um espaço de restauração,
para criar alguma vida neste espaço. Uma biblioteca temática
sobre artes: teatro, cinema, pintura, etc", expõe o vereador
da cultura, eleito pela coligação Novo Rumo (PSD/CDS-PP/PPM/MPT).
As medidas estão a ser calculadas. Os estudos de recuperação
do espaço estão a prosseguir. "Nós podemos
recuperar muita coisa, por isso podemos fazer isto com tempo e com cabeça,
sem destruir um património que é único do concelho,
porque não temos mais nenhum teatro aqui. Poderá ser a
sala de visitas da câmara. Estamos a tentar recuperar as telas,
o pano de boca que era muito bonito, os candeeiros, os corredores. Quero
só fazer teatro, não quero cinema", avança
o vereador.