Barcos de Avieiros

“Desde há muito tempo tinha lugar uma importante migração regular de gentes oriundas do litoral central, e especialmente da área da Praia de Vieira de Leiria, que todos os anos, nos períodos mortos da xávega, vinham trabalhar no Tejo na pesca do sável e fainas do rio – os avieiros, segundo o nome da sua terra de origem –. Em geral, de entrada, regressavam na primavera, para voltarem só no ano seguinte; pouco a pouco porém foram se deixando ficar na Borda de Água, e hoje encontram se aí fixados, constituindo a quase totalidade da população dessas zonas ribei rinhas; durante o Verão, dedicam se também ao transporte e venda do melão. A geração anterior à população adulta de hoje era ainda nascida na Vieira ; a atual conhece bem as suas origens familiares, mas já apenas de tradição: a fixação destas gentes nas margens do Tejo, que coincide com a decadência da xávega no Norte, e é a sua consequência, não tem mais do que poucas dezenas de anos. Antes dessa fixação, a habitação do avieiro durante o período de permanência na Borda de Água, era um barraco precário e provisório, e principalmente a bateira varada na margem. Hoje, grande parte das gentes possuem, se não uma casa de pedra e cal (cuja construção também aqui não é permitida), pelo menos um palheiro de tabuado, geralmente montado sobre estacaria, mesmo junto à água; e existem agrupamentos destes palheiros, constituindo verdadeiras aldeias, ao longo do rio: Palhota, Caneiras, Escaroupim, Monteira, etc. Mas ainda há muitas, designadamente as mais pobres, que continuam a morar nas bateiras. Quando ficam algum tempo no mesmo lugar, essas bateiras de vivenda, varadas em terra e erguidas do solo, são cobertas por um amplo toldo de encerado, armado com varas de cana como uma tenda, e aberto à frente. O toldo então recobre, além da bateira, onde as pessoas dormem, um espaço ao lado onde cozinham e comem, especialmente em dias de chuva, e onde se armam caixas, fardos, utensílios domésticos e apetrechos de pesca.

Estas bateiras agrupam se em pequenos núcleos, a seguir umas às outras, mesmo à beira da água. Em Alhandra, na Póvoa de Santa Iria, etc., elas alinham se sobre o terreiro liso das margens, rodeadas pela chusma das gentes que nelas vivem, pescadores ocupados nas suas fainas, com pondo redes ou conversando, mulheres tratando dos arranjos domésticos, criançada brincando, cães a dormir, etc. De dia os toldos mantêm se abertos para esse terreiro, tendo cada um diante de si, à hora da preparação das comidas, o fogareiro de ferro queimando carvão vegetal. À noite, ou quando chove, uma manta pendurada do bordo do toldo, à frente, veda e fecha este conjunto. Em redor e dentro da bateira está tudo sempre varrido, muito limpo e bem ordenado, num arranjo a que não falta gosto, e que está bem na tradição do pescador do litoral central. Estas gentes possuem muitas vezes duas bateiras: esta onde vivem, e outra para a pesca. A bateira de vivenda vai à água apenas quando a família se desloca. Gente errante, mudando facilmente de lugar conforme a conveniência da pesca, a cada passo se vê uma bateira carregada com todo o material que constitui a «casa» do avieiro. Em certos casos, e nomeadamente quando o avieiro possui apenas uma bateira, que por isso não se pode imobilizar, o arranjo é mais simples: o toldo é montado só sobre ela, desde a cobertura da ré, atrás, até meio do costado, onde fica aberto, em arco, e preso dos lados, ao bordo, ou até à proa, abrindo à frente como um cortinado, para se entrar.

Atualmente, com muita frequência, vê se um outro género de vivenda em barcos, estável, derivado deste: pequenas casotas de tabuado prolongando os costados, erguidas em barcos velhos inutilizáveis para a navegação, que fazem de estrado; esses barcos mantém se direitos por meio de estacas especadas contra o casco, que ao mesmo tempo os elevam do solo.

No tempo em que os avieiros se estabelecem em Vila Franca de Xira para a venda dos melões, em Julho, cada barco é abrigado por um coberto de varas cravadas no fundo lodoso do esteiro; essas varas são bifurcadas no alto, e nelas assentam, horizontalmente, outras, compridas, a que são atadas estacas transversais, formando tudo o esqueleto de uma armação, depois revestida de caniço verde, que vai murchando sob o sol intenso.”

Texto e imagens extraídas do livro “Construções Primitivas de Portugal” publicado em 1969 pelo Centro de Estudos de Etnologia/Instituto de Alta Cultura

Barcos cobertos com toldos, varados na margem do Tejo servindo de habitação a famílias de pescadores avieiros
Barco transformado em habitação de pescadores avieiros. Preparação da comida ao ar livre.

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